Capital sonho
Um conto
Sinopse: Enquanto se compadece por um calango morto, Moacyr pensa no próximo sonho que vai inventar para apostar no jogo do bicho e ter a chance de falar com a mulher por quem está apaixonado.
Eu nunca sei dizer: “isso é um conto”, mas deixo-o aqui, longe da minha maior proximidade com as temáticas do infantojuvenil. E digo, e penso, e arrisco: um conto? E mais: um conto completo? E estico: um conto que alguém possa dizer “um conto!”? No mais, existe.
Revisão da minha querida Thais Geraldi.
OBS: Fiz alterações no texto pós-revisão. Considerem eventuais desalinhos de minha responsabilidade.
O moço andava com os olhos sempre para os pés, falava baixo e não tinha pressa de ser visto. Vivia pelas beiradas de si e da capital, pois não queria ser um incômodo para Fortaleza. Trabalhava como ajudante de pedreiro e, com o pouco dinheiro que ganhava, mantinha a casa simples no centro da cidade, comprava pão velho para lançar migalhas aos pombos no Passeio Público e tomava uma dose de cachaça amarela aos domingos à tarde, na hora do almoço. O rapaz tinha abandonado a escola aos quatorze anos para trabalhar e ajudar a mãe, uma empregada doméstica a quem acreditava ter matado de desgosto, pois o seu maior desejo era que ele se tornasse um homem de inteligência, desses que iam à universidade e falavam difícil. Mas a mãe tinha morrido mesmo era de um ataque cardíaco quando Moacyr ainda nem tinha completado seus dezessete anos. Sozinho no mundo ficou, à sombra da saudade da mãe e da desconhecida paternidade.
No boteco, ao lado de sua casa, observava a leveza com que um jovem calango percorria a parede com a cabeça sempre a concordar. Foi quando o dono do estabelecimento, um senhor de meia-idade com um enorme bigode, lançou uma chinelada em direção ao calango antes que Moacyr percebesse a intenção. Perplexo com a bruteza do ato, já não reconhecia na massa de carne esmagada contra a parede a criaturinha que há poucos segundos existia. Quando seu prato de arroz com moela e farofa foi servido com a dose de cachaça, Moacyr ainda se compadecia pelo calango. Dois senhores, na mesa ao lado, indiferentes ao que Moacyr considerava grave, discutiam de forma exasperada sobre a alta dos preços dos alimentos e esculhambavam um tal caçador de marajás. Moacyr não entendia muito de política e achava que a política não entendia muito dele, e por isso não valia a pena gastar pensamentos sobre o assunto. Ele tinha muito medo de que os pensamentos acabassem e os guardavam para gastar com uma única pessoa. Seus olhos se cravam na mulher que se sentava junto ao balcão, e sua mente é dominada por aquela presença: Diana, a moça que trabalhava na venda do jogo do bicho.
O dia estava quente, o sol do lado de fora fazia a vista doer mesmo na sombra, e a pele dela brilhava de suor. Moacyr ficou nervoso, curiou o rosto no espelho pregado na coluna diante de si. Sabia que sua aparência um tanto maltratada pela constante exposição solar e a aspereza de seu serviço o deixava ser confundido por um pouco mais velho que seus vinte e dois anos, mas em nada confundia o interesse das mulheres, isso sabia mesmo que não se desse a muita vaidade. Nas serestas, onde ia uma vez por mês para aplacar a solidão, era convidado para dançar. As mulheres da vida também diziam lhe querer bem quando passava pela Praça do Ferreira, e mais de uma vez pediram para ter uma noite em seus braços, até mesmo de graça. Moacyr conheceu a cama de uma que vivia num pensionato de moças de família. Com ela, ficou até desnorteado com o tanto de coisa que era possível no corpo, mas, no fim, ela não quis saber de beijo, só de dinheiro; e Moacyr, que tinha mais necessidade de beijo do que de dinheiro, pagou o que era devido e ainda agradeceu como bem sabia fazer, e foi embora com a vontade de permanência. Já que lhe faltavam as palavras sabidas para dizer, queria ao menos o carinho da língua, essa mesma que o fazia embaralhar as letras e tropeçar nas sílabas quando nervoso.
Seu olhar se cruza com o de Diana o suficiente para que ela o cumprimente com um sorriso de dentes amarelados pelos cigarros que fumava diariamente. Ela tinha vindo de Sobral, escutou numa conversa do dono do boteco com o relojoeiro certo dia. Também tinha um menino pequeno que ficou com a mãe enquanto ela tentava a vida na capital, depois de ser abandonada pelo homem que a tinha trazido com promessas não cumpridas. Desde que a viu pela primeira vez, Moacyr sentia uma ligadura por ela, tipo grude. Toda semana inventava um sonho com um bicho do catálogo só para vê-la, e a achava bonita, a mulher mais bonita que já tinha visto. Da última vez em que foi fazer uma aposta, fingiu ter sonhado com um jacaré.
— Ele tava atrás de tu, era? — Diana quis saber.
— Sim — Moacyr respondeu a mentira com dificuldade de encará-la. Acontece que Diana usava uma blusa amarrada na cintura, e ele não queria ser pego olhando demais para aquele umbigo que nunca tinha visto. Sua circunferência era pequena, mas funda, como se escondesse mistérios, e queria descobri-los mais do que tudo.
— Você não é muito de falar, né? — a mulher comentou, passando o troco que Moacyr não pegou, saindo ligeiro de lá.
Enquanto almoçava, se inquietou, pois sabia já ter fingido sonhar com todos os animais do catálogo. Evitando olhar na direção do calango morto, Moacyr desejou que o pobrezinho estivesse disponível para apostas.
Um homem de óculos escuros entrou no boteco. Moacyr o conhecia, era o filho do dono do mercadinho, um tipo zuadento, que gostava de andar sem camisa e não trabalhava. Moacyr o ouviu pedindo uma cerveja no bar e depois colocando o braço por cima dos ombros de Diana, e quando essa arrodeou o dorso do homem em uma intimidade de amantes, se sentiu tão esmagado quanto o calango na parede.
No rádio a pilha em cima do balcão, Romance no deserto embalava aquela tarde de domingo. Moacyr escuta a risada de Diana, uma dessas risadas de louca paixão. Ao se levantar, deixou o dinheiro do almoço sobre a mesa, pegou o pacote de pão velho para os pombos e catou o calango esmagado da parede para enterrá-lo num canteiro. Ele olhou uma última vez na direção da mulher que beijava o outro sujeito e decidiu que não voltaria mais na venda do jogo do bicho, e que já era hora de parar de fingir sonhos. E ao sair do boteco, como se tomado por um assombro, Moacyr percebeu que nunca sonhou com Diana.







Meu deus. 😭
" se sentiu tão esmagado quanto o calango na parede."
Fui enterrado junto com o calango e a paixão dele por Diana.
e eu te respondo: sim, um conto!