Lobisomens juvenis
O livro existe (PARTE I): a voz das referências
I’m not an imbecile
Don’t treat me like an animal
I’m not a creature in the zoo
Don’t tell me what to do
Animal boy, Ramones.
A última vez que abri espaço para falar do meu livro, para além de algumas notas, foi em outubro do ano passado. Não sei se é aconselhável falar de um livro que não tem previsão de publicação, mas não sou supersticiosa. O livro existe, apesar de não estar pronto, e falá-lo me ajuda a entendê-lo. No entanto, ter alcançado essa etapa do caminho em nada me deixou aliviada. O livro, cheio de arranhaduras e em seu estado brutíssimo tal qual um animal arisco do sertão, passa pelo o olhar de um também escritor e amigo — e para quem reservo uma dose a mais de tagarelices e angustias sobre a atual versão da minha história, assim como o primeiro contato com a feiura que há na sua feitura.
O livro já não está no meu domínio, na proteção dos meus quereres, das minhas garras de águia que precisou ir pra longe do ninho pelo próprio bem do filhote.
O livro é como um menino danado que pulou o muro de casa pra brincar na rua. O que podemos fazer — depois de ter dado mil carões! — além de olhá-lo da calçada na tentativa vã de evitar que se machuque?
Limãozinho espremido na ferida: deixar um livro ser e crescer.
Vocês não sabem ainda, mas eles estão lá, donos do mundo. Os meus garotos. Melhor não encará-los por muito tempo, é certo que são amostrados, mas não se deixem enganar: de bobeira, estão em alerta. As ruas são uma selva e eles caçam e são caçados, inclusive pelos próprios sentimentos. Alguns estão mais perdidos que outros, mas não há necessidade de hierarquia. Já se acostumaram a falta de tudo, mas encontram alívio para as durezas na amizade mais verdadeira.
Se o mundo é mesmo parecido
Com o que vejo
Prefiro acreditar no mundo do meu jeito
E você estava esperando voar
Mas como chegar até as nuvens
Com os pés no chão?Letra de Eu era um lobisomem juvenil, Legião Urbana.
Meus lobisomens juvenis estão passando pelas transformações dolorosas e inevitáveis da adolescência. A mutação monstruosa acontece em suas mentes, em seus corpos, nas responsabilidades que começam a pressioná-los, na descoberta sexual, nos seus modos de agir. Esses lobisomens juvenis estão à margem de uma cidade que se moderniza sem nenhuma ternura ou preocupação com suas necessidades. O rock é a ordem do dia, e a gasolina nas mobiletes é tudo que precisam — se tiverem uma gatinha para acompanhar, melhor ainda. Mas, se tiver pancadaria, não deixam por menos.
O que sinto muitas vezes
Faz sentido e outras vezes
Não descubro um motivo
Que me explique por que é
Que não consigo ver sentido
No que sinto
O que procuro
O que desejo
E o que faz parte do meu mundo.Letra de Eu era um lobisomem juvenil, Legião Urbana.
É muito inseguro tentar escrever garotos marginais quando temos os muito bem explorados Capitães da Areia (Jorge Amado) e The Outsiders (S.E. Hinton), minhas principais referências literárias para a construção dos meus garotos. Numa primeira tentativa, isso não é tarefa fácil, ainda mais quando a voz dos que nos antecederam querem dar suas opiniões e olhamos por muito tempo para o abismo das comparações. Mas se um homem, aos 25 anos e já com cinco livros nos lombos, escreveu seus meninos do trapiche numa Salvador da década de 30, e uma menina de 15 anos escreveu sobre as gangues juvenis Greasers e Socs numa Tulsa dos anos 60, acredito que há lugar para uma mulher que desde os 31 começou a acreditar que também poderia construir seus próprios garotos marginais, ambientando-os numa Fortaleza dos anos 80.
Decidir por ambientar a história numa década que não vivi me dá a incerteza não só de estar pecando na verossimilhança com o tempo proposto — ainda que para isso exista a pesquisa como auxílio e a liberdade do inventar —, mas também o medo que se instala em parecer menos honesta que aqueles autores nos quais busquei inspiração e que viveram nos tempos dos seus livros. Mas meus delinquentes jamais poderiam ocupar as ruas da década de 2020, pois, nas ruas do século XXI, pouco espaço, ou nenhum, sobrou para aquela rebeldia arruaceira dos aprendizes de James Dean que ainda não alcançava a criminalidade e o horror das facções que, impiedosamente, interrompem e capturam os nossos jovens. Por isso, minha história precisou ser contada em outro tempo, num tempo de jaquetas, mobiletes, brigas de rua e rock ‘n’ roll.
Para me tranquilizar das inquietações de estar ou não fazendo uma imitação das narrativas que tanto admiro, também tento sempre manter na memória a resposta que José de Alencar compartilhou no seu breve livro de memórias, Como e por que sou romancista, quando foi acusado de imitar o escritor estadunidense James Cooper, na escrita de O Guarani:
Disse alguém, e repete-se por aí de oitiva, que O guarani é um romance ao gosto de Cooper. Se assim fosse, haveria coincidência, e nunca imitação; mas não é. Meus escritos se parecem tanto com os do ilustre romancista americano como as várzeas do Ceará com as margens do Delaware.
(…) O que se precisa examinar é se as descrições de O Guarani têm algum parentesco ou afinidade com as descrições de Cooper; mas isso não fazem os críticos, porque dá trabalho e exige que se pense.
Longe de Tulsa e de Salvador, há uma Fortaleza que se entranha nas vidas dos meus meninos, ora como sua aliada, ora como confrontadora de suas escolhas. No meu livro, em momento algum pretendi recriar um embrutecido Pedro Bala ou um meigo Ponyboy que resiste à dureza de sua precariedade, mesmo que no reflexo do meu protagonista haja algo de seus antecessores das ruas. E me pego a fantasiar vez ou outra: Pedro Bala, Ponyboy e meu protagonista seriam cúmplices, não rivais literários.
O meu protagonista teve seus fundamentos para ir para as ruas, se não pela necessidade impulsionada pela pobreza e pela violência do meio — como dos outros citados —, foi movido por aquele sentimento bélico e comum a todos os adolescentes, precários ou não: a vulnerabilidade e a busca, muitas vezes devastante, por uma identidade. Por uma expansão de si e do seu pensar.
Garotos rebeldes têm “de ruma” em livros juvenis — ou o tal young adult. O bad boy ainda é um arquétipo que funciona, seja nos livros clássicos ou da atualidade. Poderá haver apontamentos sobre uma possível tentativa de imitação das minhas referências ou de equiparar a formação da minha gangue/bando com outras já lidas? Não acho que seja pra tanto, mas eu saberei defender a minha história, “porque justamente quando a sorte me deparava o modelo a imitar, meu espírito desquita-se dessa, a primeira e a mais cara de suas aspirações, para devanear por outras devesas literárias, onde brotam flores mais singelas e modestas”, como disse Alencar do seu fazer literário. E aqui roubo e complemento uma citação de Montaigne, publicada no rico Metaensaio, escrita fronteiriça: “Assim, leitor, sou eu mesmo a matéria desse livro, o que será talvez razão suficiente para que não empregues teus lazeres em assunto tão fútil e de tão mínima importância”, como poderia ser o julgamento de que o livro seja ou não uma imitação das minhas referências.
Se escuto a voz das minhas referências, o faço com o mais profundo respeito aos clássicos que me levaram aos meus meninos, tentando formar suas personalidades na mais sincera insistência de que sejam totalmente independentes de uma pretensiosa busca de pisar nas mesmas pegadas de Jorge Amado ou S.E. Hinton. Pedro Bala e Ponyboy existem para além de seus autores, e trabalho para que o meu livro possa existir para além desses que me são um modelo. Mas na escrita é certo que nunca andamos muito longe das nossas inspirações, por mais “originais” que pratiquemos ser. Pisar sobre as pegadas dos que nos antecederam, mesmo que eles tenham pés maiores, é o que ajuda a construir a maturidade para perceber as diferenças entre o que é criação e o que é imitação.
E espero que um dia alguém possa pensar do meu livro o que o poeta Augusto Frederico Schmidt disse de Rachel de Queiroz quando leu O Quinze (quando outros livros com o tema da seca já estavam consolidados): “Vê-se bem que a autora ficou dentro da sua experiência — contentou-se com o que podia fazer —, não foi além das suas possibilidades psicológicas e por isso foi feliz”. Eu digo isso porque não escrevi o novo Capitães da Areia ou o novo The Outsiders. Eu escrevi o meu romance juvenil ideal. Eu escrevi os meus garotos marginais.
O livro existe.
NA EDIÇÃO ANTERIOR DA SEÇÃO ROMANCE IDEAL: O livro espera por mim
O livro espera porque sou além dele. Eu preciso ser para continuar a cuidá-lo. O livro espera mesmo quando “fulana terminou um livro no puerpério” ou “fulano escreveu aquele clássico em duas semanas, sabia?”. O livro espera e não quero mistificar e mastigar isso até triturar o cérebro e os dentes.
O livro espera.







Torcendo para seus meninos adentrarem as livrarias, Anny!
tomara que o livro não demore a ganhar o mundo! =)