Selva bárbara
Uma poesia exploratória
INDAGAÇÕES PARA EXPLORAÇÃO
Como o pênis é encontrado para o primeiro ato de masturbação? É carinhoso? É medroso? É um rompimento com algo. Quando as mãos vão de encontro pela primeira vez ao órgão antes percebido apenas pela função de fazer xixi e aspecto do que “os diferenciam” do corpo das meninas? Há um menino e há um pênis? Duas existências em uma só? Como é se descobrir no desejo quando a promessa de inocência ainda se agarra com força no corpo em puberdade ou barroa na adolescência?
Quando os meninos descobrem o pênis e o entende? O corpo da infância indo de encontro com o corpo do rapaz: atropelamento seguido de fuga!
Desejo e crescimento. Fragmentos e completudes. Angustia e fascinação. A cosquinha de se transformar, de sentir. Finalmente aprendendo a ser!
E tocar.
A poesia nasceu da minha vontade de explorar os diversos temas que cercam o amadurecimento dos juvenis. No entanto, não tento dizer o que é a masturbação na vida dos meninos, pois há muitas experiências na descoberta do pênis enquanto órgão sexual. A descoberta da masturbação pelos meninos é algo que eu não conseguiria alcançar em sua totalidade e complexidade para além do que li e ouvi. A poesia é apenas uma forma de dar forma para pensamentos que deixo aqui: o bárbaro da inexperiência desses que ainda se aprendem e a selva como território-corpo. Há também a delicadeza do possível numa poesia simples como essa, porque pensar os meninos e seus temas exige o movimento não apenas de percebê-los, mas de amá-los.
Selva bárbara são palavras que uso para tentar compreender não só o despertar sexual de um garoto, mas a descoberta de um corpo que existe e é dele.
Entre a biologia e a construção do masculino: a vulnerabilidade que, muitas vezes, não passa.
SELVA BÁRBARA
Naufrágios gestos à deriva a guitarra uáin-uáin-uááá... uáin-uáin-uááá... uáin-uáin-uááá... uáin-uáin-uááá... uáin-uáin-uááá... uáin-uáin-uááá... declaração de independência ou morte! o menino sonhava o coração dentro da madrugada tantas dúvidas água de chuva bichos selvagens suor e lama dedos na selva bárbara socos no medo pelinhos desordeiros percebe no seu encalço a mudança do tempo que vem sem pedir licença é como joelhos cedendo trovoadas em noites malucas sol quente e ventania beijinhos de boa noite casquinha de ferida confetes de papel celofane gostinho da fruta do quintal de vó porquinhos guinchando à ameaça do abate foguete que sobe e sobe desengonçado mesmo rompendo a atmosfera momento mágico ao alcance das mãos transformadas em remos garras arrancando vísceras o impulso da partida já foi algo mas agora é alguém adentrando a selva bárbara vai vai de encontro com seu reflexo na pele movimentos exploratórios desbrava um segredo pedalinho no céu os gibis e power rangers dos queridos, queridos pais já não sente tanta falta não foi ontem que aprendeu a escrever o nome? não foi um dia desses a bicicleta sem rodinhas? menino correnteza menino beleza tudo fazendo sentido estava em si o tempo todo e sente vontade de ficar números irracionais a peça que faltava ficou até mais velho os pés alcançando os tormentos Golias é fichinha contra si mesmo vai o tiro da baladeira líquido borbulhante brindando o espaço sideral gosma e milk-shake saliva é bom demais c a i u e não doeu mas quis chorar não foi engraçado HAHAHA quer sair correndo pela cidade se atrepar no muro um palavrão amoroso desculpas sem remorso o corpo inteiro no mundo inteiro a maior solidão a vergonha e o amostramento a saudade que fere como um sermão chutar bola no gol dos campeões um dez na prova mais difícil assoprar um apito pular até o teto bem pertinho da alma se dividindo o peito um tambor carrinho de bate-bate descendo a avenida a festa mais imperdível showman nacional os passos de Simonal nas solas dos pés pisando no acelerador abrindo o caminho a infância lá do outro lado se despedindo do menino uáin-uáin-uááá... uáin-uáin-uááá... uáin-uáin-uááá... uáin-uáin-uááá... uáin-uáin-uááá... uáin-uáin-uááá...
NA EDIÇÃO ANTERIOR DA SEÇÃO JUVENIL: O bélico mundo das garotas
Num bairro chamado Barrocão, no município de Itaitinga-CE, uma garota ia de encontro com coisas bang bang. Num piscar de olhos, eu: estudiosa, calma e que não mexia com ninguém, me tornei um desses “brinquedos malenks” descritos pelo personagem Alex, de Laranja Mecânica (Anthony Burgess). Shortinho curto, lápis de olho bem pretinho, brilho labial sabor tutti-frutti e personalidade de gelatina. Só doze anos quando tudo começou.



Que sensibilidade incrível no seu texto!
Como amo essa versatilidade sua das temáticas!!!