Dream pop
Uma poesia
Dream pop — sentimento sonoro — nasceu de rascunhos de personagens minhas, de mim mesma e de muitas outras. Dela… E também de Christiane F. e do filme Aos treze. Das garotas precárias.
Meninas, menininhas, que foram tão fundo em busca de cuidado e amor. De proteção. Não acharam. Foram impedidas de ver a doçura e a gentileza, de se grudar em outra alma. Sentimentos obscurecidos, distantes e espaciais. Deixadas à própria sorte para enfrentarem os monstros e os pesadelos.
Meninas, menininhas, que conheceram aquele desejo de desaparecer, que se despediram da inocência cedo demais.
Dream pop
Num quarto universal:
meia-calça
e joelho ralado
sem rímel borrado porque
ela não teme mais os pesadelos
está sempre acordada.
Uma grande placa de perigo no caminho pro espelho
ela passa sombra azul igual a todas as garotas tristes
enquanto pede 'be my angel'.
Cabelos pretos como um corvo
Alan Poe é seu melhor amigo
esconde o coração no diário
longe de olhos revirados e risadas altas
os mais velhos disseram que o que é valioso nunca dura
não há razão para tanto medo, garotinha.
Ela
não espera mais por telefonemas
nem acompanha as últimas notícias
a podridão está por toda parte
é só olhar
escapa pela janela com a lua por testemunha
faz um pedido a uma estrela: que seja para sempre sábado à noite.
Crianças no parque e suas brincadeiras valentes
insinuam vontades
ela mostra seu piercing na língua
beijos conhecidos até tarde
caminha sobre brasas
mas não quer voltar pra casa
aumenta as apostas de quem troca mais amor por nada
e ela ri da sua pior piada
enquanto finge estar obcecada
ela sabe o que você não sabe
enquanto escuta Be my angel.
Ela não se deslumbra mais com astros
nem acredita na gentileza dos cansados
ela só quer entender
enquanto tenta crescer
porque as pessoas fingem não ver
que a podridão está em toda parte
mas já é tarde
ela só quer desaparecer
ela só quer que alguém a chame de volta
ela quer dormir
ela quer abraçar
ela quer tentar
por que ninguém vê?
Ela se arrisca em brincadeiras valentes
só quer sonhar mais uma vez
mas anjos da guarda dormem de madrugada
ela não vai voltar pra casa.
NA EDIÇÃO ANTERIOR DA SEÇÃO JUVENIL: Vetins Mucuripe 77
Djacir gostava das tardes de domingo, não importava se na praia ou na sua casa, onde escutavam Linkin Park na maior altura. Não sabiam inglês, mas deslocavam as traduções das músicas preferidas na lan house perto de casa e tentavam decorá-las. Um dia, de bobeira na escola, na hora do intervalo, quando escutavam From the inside no celular guitarrinha de Batista e cantavam a plenos pulmões, ou melhor, enrolavam, uns caras de uma turma mais velha riram deles e disseram que aquilo não era inglês nem ali nem na China. Uns otários!, Batista falou logo depois que foram embora. Acontece que Batista começou a rir, e ele ria tanto, mais tanto, que os alunos implicantes se afastaram achando que ele tava maluco. Djacir tinha certeza de que Batista era corajoso, que não tinha medo de ninguém e que, se quisesse, teria acabado com a raça daqueles garotos num piscar de olhos. Admirava o amigo tanto quanto admirava o pai e o Ronaldo Fenômeno.



que seja sempre sábado! 🙌
Amo!!!