Vetins Mucuripe 77
Um conto
SINOPSE
Na linha de ônibus Mucuripe 77, os melhores amigos Djacir e Batista vão atrás de uma tarde de diversão na orla da cidade. Entre sentimentos que acalentam e incompreensões que angustiam, afinal, quanto carinho cabe dentro da amizade entre dois vetins?
A revisão é da Thais Geraldi, mas fiz algumas alterações no texto. Considerem eventuais desalinhos de minha responsabilidade.
VETINS MUCURIPE 77
Primeiro ele, depois o melhor amigo e mais alguns. Que apreensão todos no ônibus sentiram quando uma turma de vetins pulou a catraca.
Uma senhora que voltava da missa logo cutucou a mulher grávida na cadeira à sua frente: — Esses moleques vão roubar. Que Jesus e Nossa Senhora nos protejam com todos os seus anjos.
O motorista, em sua sexta viagem daquele domingo, já estava acostumado com a baderna. Iam para a praia vadiar, sabia. Mas não era doido de se meter e correr o risco de levar uns socos só por conta de umas passagens de ônibus. Além do mais, o sindicato não tinha conseguido negociar o aumento do salário, então que se lasquassem todos!
Aos fins de semana, era certa a debandada de crianças e adolescentes pegando o Mucuripe 77, em direção à orla de Fortaleza. Poço da Draga, Havaizinho, PI, Náutico? Não importava. Queriam um solzin bom, escutar o forró das antigas vindo das barracas, pegar uma onda com a prancha de isopor; uma bola faria a felicidade total. E a danação de dar um mortal da Ponte Velha para o mar tão perigoso quanto um coração se apaixonando!
Djacir sentou com Batista nas cadeiras altas. O cabelo descolorido com água oxigenada no dia anterior. O pai o levou ao cabeleireiro, mas não deixou que fizesse os dois riscos na lateral esquerda da cabeça, acima da orelha, como tanto implorou. Ele queria ficar parecido com Batista, o primeiro do grupo a nevar naquele começo de dezembro. Mas o pai estava irredutível.
O ônibus lotava um pouco mais a cada parada. Outros rostos conhecidos, biquínis à mostra, sorrisos malandros, tiração e traquinagem. Um caminhão de granja passou do lado do Mucuripe 77 e fez com que todos tampassem o nariz com aquele fedor todo.
— Diabéisso, man! Fecha essa boca de fossa! — Batista gritou, para a gargalhada geral. E Djacir pensou que o sorriso dele era capaz de abarcar o mundo, pelo menos o seu.
Alguns passageiros olhavam desconfiados ou de cara feia para os barulhentos, mas não havia jeito de conter a empolgação da meninada que queria domingo de praia. Era a diversão certa dos que iam dar uma voltinha pras bandas da Beira-Mar.
Djacir gostava das tardes de domingo, não importava se na praia ou na sua casa, onde escutavam Linkin Park na maior altura. Não sabiam inglês, mas deslocavam as traduções das músicas preferidas na lan house perto de casa e tentavam decorá-las. Um dia, de bobeira na escola, na hora do intervalo, quando escutavam From the inside no celular guitarrinha de Batista e cantavam a plenos pulmões, ou melhor, enrolavam, uns caras de uma turma mais velha riram deles e disseram que aquilo não era inglês nem ali nem na China. Uns otários!, Batista falou logo depois que foram embora. Acontece que Batista começou a rir, e ele ria tanto, mais tanto, que os alunos implicantes se afastaram achando que ele tava maluco. Djacir tinha certeza de que Batista era corajoso, que não tinha medo de ninguém e que, se quisesse, teria acabado com a raça daqueles garotos num piscar de olhos. Admirava o amigo tanto quanto admirava o pai e o Ronaldo Fenômeno.
— Se liga, aquele cara parece o Chico Pezão — Batista apontou para um homem escorado na porta de desembarque. Djacir riu e concordou. Adorava assistir Nas garras da patrulha.
— E aquela dona ali parece a Fofolete, mó cara de fofoqueira! — Djacir entra na brincadeira.
— Olha ali, olha ali! O Cornélio! — Batista dava gaitadas e os outros amigos também começaram a fazer enxame com as comparações.
Nenhum passageiro escapou da mangação dos vetins. Sobrou até pro motorista, comparado ao malandro Tizil, e que foi vaiado depois de uma freada brusca. Uma garota do grupo, com piercing no nariz e no lábio, tentou se avalentar pra cima do homem, xingando-o e dizendo que eles não eram burro de carga, mas Batista mandou-a se aquietar, pegando-a pela cintura e fazendo com que se sentasse em seu colo. Há dias que vinham de chamego, tinha quem dissesse que foram vistos saindo de um boxe do banheiro feminino na escola. Djacir soube dos boatos, mas Batista não lhe contou nada. Djacir olhava pela janela, emburrado com a intromissão da garota no seu espaço.
Era seu aniversário. O dia tinha começado com a mãe levando um bolo confeitado de chocolate até sua cama de beliche. Até Nescau comprou, sua bebida favorita. O pai deu uma camisa nova do Fortaleza, e mesmo que Djacir torcesse secretamente pelo Ceará, ficou felizão e abraçou o pai. E ainda por cima ganhou vinte conto! Depois do banho, o garoto correu até a casa de Batista, mesmo que fosse seu vizinho, parede com parede, mas sempre tinha pressa da companhia do melhor amigo. Batista ainda dormia no sofá da sala, coberto pelo lençol dos pés à cabeça, e Djacir se sentou em suas costas e pulou até acordá-lo. O outro, indignado, pegou o amigo numa chave de pescoço, a brincadeira sendo encerrada com um abraço sincero e um feliz aniversário dito por um Batista ainda sonolento. Djacir queria tê-lo prendido por mais tempo no abraço, mas Batista o soltou rápido. Ele sempre soltava rápido. Meninos não se abraçavam o tempo todo como as meninas, e Djacir achava aquilo uma pena porque abraços eram bons pra caramba! A avó de Batista também o abraçou, mas era um abraço diferente. Seu cheiro de suor e do peixe que estava descamando encheram o nariz do rapaz que completava quatorze anos.
Quando mostrou pro amigo os vinte reais que o pai lhe deu, correram como loucos até a bodega pra comprar chilitos, bombons, recheados e o guaraná de dois litros que Djacir guardava na mochila. Só para os dois, prometeu. Quando os outros estivessem distraídos na praia, devorariam tudo. Djacir queria deixar Batista feliz também, já que fazia um tempão que sua mãe foi embora com o namorado pra Baturité. Agora, Batista morava sozinho com sua vó. Djacir percebia que o amigo tentava manter a pose de durão, mas sabia que ele sentia muita saudade da mãe. Já se passaram vários meses e ela ainda não tinha voltado ou ao menos telefonado pro orelhão em frente à sua casa.
Djacir vê a menina no colo de Batista com enxerimento pro amigo, e não gostava daquela sensação de estar em queda livre dentro de si, embora pensasse que também fosse por causa da ladeira do lado do Dragão do Mar, por onde o Mucuripe 77 passava naquele instante. A menina levantou os braços como se estivesse numa montanha-russa, o braço quase batendo nele. Achava a risada de Batista diferente quando ria pras meninas. O conhecia como a palma da sua mão.
No quintal de casa, tantas vezes atrepados no muro que separava as duas residências, ficaram, depois da escola, até a hora do jantar, quando as suas mães mandavam entrar. Foi por cima do muro que dividiram um pacote de M&Ms e tiveram uma dor de barriga colossal no dia seguinte, porque não sabiam que a guloseima estava vencida há um tempão. Foi por cima do muro que comemoraram a vitória do Brasil na Copa do Mundo, quando a seleção se tornou pentacampeã, e Batista chorou igualzinho ao seu pai. No meio da rua, o asfalto tinha sido pintado com as cores da bandeira, e os meninos estouraram várias rasga-lata e puderam ficar acordados até de manhã, dançando forró e tomando refri e alguns goles da cerveja dos adultos já bêbados demais para notar. Foi por cima do muro que Batista falou pela primeira vez que Djacir era seu melhor amigo no mundo inteiro. Foi por cima do muro que Djacir viu o amigo chorar pela segunda vez quando sua mãe foi embora. Foi ali, por cima do muro, que só uns dias atrás os meninos se envaideceram com o surgimento do primeiro resquício de um bigode. Também foi por cima do muro que Batista disse a Djacir quando beijou uma garota pela primeira vez, e aquilo deixou o menino triste à beça, mesmo que ele não entendesse bem o porquê. E teve medo de que a amizade deles mudasse. Ainda tinha.
A menina finalmente tinha saído do colo de Batista e se sentado com uma amiga.
— Abre aí um recheado pra gente. Tô morto de fome, ó.
Como sabia que recheado era a comida favorita de Batista, Djacir comprou um de cada sabor: chocolate, morango, chocolate branco e flocos. Batista escolheu o de morango.
— Cara, eu poderia comer isso todo dia, sem enjoar.
— Duvido — diz Djacir, dando um empurrão de zoação em seu ombro, recebendo outro de Batista, que estava com os dentes cheios de restos de recheio.
Djacir percebe uma folha no cabelo do amigo e a retira, mas não sem sentir por um segundo a textura do cabelo crespo do outro, assim como o seu. Mas só eram parecidos nisso. Batista, apesar de mais baixo, era mais marrento; parecia até mais velho do que seus quinze anos, e sempre protegia Djacir dos outros meninos que zombavam dele por causa dos seus dentes muito grandes, quase saindo da boca. Mas Batista nunca fez pouco da sua cara, parecia até que ele nem via seus dentes. Djacir pensava que, por Batista ser tão confiante, é que tinha tantas meninas a fim dele o tempo todo, e nisso eles também não se pareciam, porque quando Djacir olhava para as garotas, não sentia as coisas que os amigos diziam. Tinha algumas amigas, mas elas ainda não o faziam sentir vontade de ir tomar banho pra ficar cheiroso; elas não o faziam ter medo de rir com seus dentes à mostra; elas nem mesmo faziam com que sentisse frio na barriga. Um outro amigo mais desbocado falou que ele ia saber quando gostasse de alguém porque seu pau iria avisar. Djacir não riu e ficou chateado por Batista ter o feito. Não compreendia por que não parecia ser como os outros da turma. Achava seu coração esquisito. Os olhos também. Se achava só meio menino, e aquilo lhe aborrecia, porque gostava das garotas, mas era a companhia do amigo que ele mais amava.
Foram tantos os momentos ao lado de Batista que queria que tivessem durado para sempre, como da vez em que gazearam aula e foram para o Centro de bicicleta e passaram a tarde toda de bobeira na Praça do Ferreira; depois, foram assistir a uma exibição de Uma noite alucinante no Cinema São Luiz e riram como loucos na sala elegante e sem mais ninguém. Só os dois e o filme mais besta que já assistiram na vida, comentaram depois. À noitinha, quando foram embora na chuva com suas bicicletas deslizando na pista, Batista disse que sentia como se pudesse voar, as mãos soltando o guidão. E Djacir voou.
O Mucuripe 77 parou no lugar de sempre e a meninada desceu, cruzando a avenida em direção à praia. O sol de uma da tarde estava mais quente que nunca, mas não havia reclamação.
Passada a euforia das primeiras horas, sentados nas pedras na lateral da Ponte dos Ingleses, os calções cheios de areia dos caldos que levaram, pois o mar não estava para brincadeira, Djacir e Batista merendavam enquanto os outros garotos ainda estavam na água e as meninas ainda se bronzeavam com parafina ali perto. Batista passou para Djacir a garrafa de refrigerante de dois litros já pela metade e soltou o maior arroto da Terra. O refrigerante, mesmo quente, quase o faziam gemer de felicidade.
— O que tu acha da gente aprender a surfar? — Batista pergunta, olhando para o mar, onde dois homens pegavam onda.
— Tu num tinha medo de tubarão quando pivete?
— Meuzóvo! Que história essa? Aqui não tem medo de nada, não, man. E não tem tubarão aqui. — Batista conclui, quase infantil.
— Sei.
— Eu vou aprender a surfar. Tô nem vendo! Acho maneiro que só. Talvez até me torne profissional. E vamo surfar junto e pegar umas bichinha bonita. Elas gostam é de surfista, que eu tô ligado.
— Eu prefiro escutar som.
— Macho, num fresque não. Temo é que curtir a vida! Nois dois vamo é tacar o terror nessa cidade. Seremos dois bad boys e vamo ter jaqueta, carro maneiro e tudo. Envenenados!
— Não sei de nada disso. E eu pensava que surfista só andavam de calção.
— É que eu vou ser diferenciado, se liga?
— Se você diz. Mas quero ser outra coisa.
— Por mim, fechou. Mas vamo usar jaquetas, para parecermos mais durões. Temo é que ser durões, Djacir. Assim ninguém mexe com nois, tá ligado?
O entardecer tão esperado pelos banhistas já beijava o mar da loura desposada do sol quando Batista abriu um de seus enormes sorrisos e se levantou. Desceu algumas pedras e, olhando para Djacir por cima do ombro, chamou-o antes de pular no mar outra vez. Djacir foi, seguindo-o como sempre. Sorriu para Batista antes de também pular, o coração em festa. Tudo ao lado de Batista parecia bom pra caramba. E, enquanto via a onda se formando por trás do amigo, fez seu pedido de aniversário: que a amizade durasse para sempre.
E os vetins mergulharam.
NA EDIÇÃO ANTERIOR DA SEÇÃO JUVENIL: Selva bárbara
pedalinho no céu
os gibis e power rangers
dos queridos, queridos pais já não sente tanta falta
não foi ontem que aprendeu a escrever o nome? não foi um dia desses a bicicleta sem rodinhas?
menino correnteza
menino beleza



Queeee lindooo!!! Senti a queda livre na barriga!
Que legal, Anny! Você está construindo histórias deliciosas de ler!